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maria jorgete teixeira

Ao homem mais belo do mundo


Ao homem mais belo do mundo



Inventei-te porque não estavas e a casa chorava a tua ausência

Inventei-te com toda a beleza que guardei na polpa dos meus dedos

E gozei-te como a um deus pagão

Tive de inventar-te juntando pedaços desordenados

Uma mão e uma nádega, dentes e lágrimas, bocas e pés

E letras presas nos livros, heróis, anjos e demónios, suspiros e delírios

Marchetei-te os meus silêncios e arquitectei réplicas aos meus anseios

Pus ainda em ti toda a ternura de que sou capaz

Desenhei-te depois olhos de lua nova e cerrei-te os lábios com a chave mestra dos meus beijos

Prendi-te a mim em cachos de cegueira, enquanto mariposas te ofereciam asas para que navegasses na ausência de ti

Pintei-te numa paisagem onde vibravam orquestras de cigarras e o suor escorria no verão dos corpos

Eras perfeito na tua viuvez!

Amei-te depois assim, num puzzle desordenado, com caras sobrepostas e duas mãos esquerdas a segurar-me os seios

Amei-te à pressa deixando cair no chão as peças do teu rosto

Como um puzzle que se desfaz, feito de cacos de beleza

E ordenei que me amasses

Então morreste-me como um Narciso que se afoga na própria imagem