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maria jorgete teixeira

Apelo



Inadiável o apelo das ondas. Os pés nus, dedo a dedo, numa voluptuosa pressão sobre a areia. A água fresca contra o fogo da pele. Naquela urgência que o corpo tem, ou a alma, sabe-se lá…

A vida raramente se pode arquivar em prateleiras isoladas. Nem as pessoas. Todos têm os seus lados mais luminosos ou mais lunares. Segredos cabeludos e desejos inconfessáveis. Na opacidade de cada um está o seu fascínio.O ser humano é curioso e inquieto, por definição. Prendemo-nos menos ao que é óbvio do que àquilo que nos é apenas insinuado. Sempre a ânsia do desconhecido nos fez perder o chão. O risco, o medo. O borbulhar incerto mas possível que torna a vida apetecível e tão cobiçada.

Hoje era inadiável o encontro com as águas. Porque o verão se anuncia, cálido e cheio. Imenso e aberto é o azul. Do céu, do mar. Entre o branco nacarado das conchas e o traço das asas das gaivotas. O olhar baixa, ergue-se, voa e extasia-se. As pessoas são cenário, apenas. Sombras longínquas, vozes numa toada única e indefinida. Contraluz num reino onde detêm um papel secundário. Longe de mim. Tão longe como a nuvem que o avião fabrica.

mjt