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maria jorgete teixeira

Carta de adeus


Era branca a folha de papel. O branco das tardes vazias, das palavras mastigadas que se enlutam na garganta. Presas na mudez dos lábios cerrados.

O branco é a cor à espera das outras, pensou.

Tropeçou no pé da mesa, na cara distorcida os olhos esbugalhados tinham cegado pela insónia.

O papel era branco, branco de inquietude. Branco, na quietude de poço seco e infértil.

Quem poderia tê-lo deixado ali, onde as janelas se tinham fechado de repente e as raízes das coisas tinham fugido tecto fora procurando chuva?

Mais de perto reconheceu a letra dela onde a palavra se lhe atirou aos olhos, feita espada de sílabas mordentes.

"Adeus"

A escuridão fez-se permanente e a madrugada nunca chegou a nascer.

jorgete teixeira